TybyrIA é o primeiro modelo de IA de código aberto em português para detectar discurso de ódio anti-LGBTQIA+, com Radar Social gratuito.
Última atualização: junho de 2026 · v2.2
O Radar Social LGBTQIA+ é uma ferramenta gratuita e de código aberto que identifica discurso de ódio contra pessoas LGBTQIA+ em textos em português. Ela funciona a partir da TybyrIA, o primeiro modelo de inteligência artificial em português, aberto, treinado para reconhecer esse tipo específico de ódio. O projeto nasceu como resposta a uma onda de ataques contra o podcast Entre Amigues. Hoje ele serve à moderação de conteúdo e sustenta uma Ação Civil Pública contra as Big Techs.
O modelo de Inteligência Artificial “TybyrIA”
A TybyrIA leva o nome de Tybyra do Maranhão, a primeira vítima de lgbtfobia registrada em território brasileiro. Por baixo, o modelo combina aprendizado profundo, processamento de linguagem natural e redes neurais do tipo transformer. É a mesma tecnologia que move os grandes sistemas de IA de hoje. A diferença está na escala. A TybyrIA é um SLM, sigla de Small Language Model, ou modelo de linguagem pequeno. Roda num computador comum, sem depender de grandes datacenters nem do consumo de água que eles exigem para se refrigerar. E é aberta e gratuita.
A TybyrIA foi treinada a partir do BERT Tupi (BERTimbau), uma referência na detecção de discurso de ódio em português brasileiro. É desse treino que vem sua capacidade de captar ironias, ofensas veladas e outros usos indiretos da linguagem do ódio.
O Radar Social pode ser testado direto no navegador. Quem quiser conhecer as outras ferramentas encontra o Radar Legislativo LGBTQIA+ e a documentação técnica nos cards dos modelos no Hugging Face. Os detalhes do modelo, do treinamento e da base de dados estão na apresentação da TybyrIA.
O Radar Social LGBTQIA+
Disponível online, de graça e com código aberto, o Radar Social reconhece transfobia, homofobia, lesbofobia, bifobia, deadnaming e incitação à violência. Serve para analisar material de ódio, apoiar a moderação de conteúdo, alimentar interfaces de cuidado e sustentar trabalhos de pesquisa, advocacy e defesa jurídica.
A ferramenta trabalha com calibração por limiar, o que ajusta o resultado ao contexto de uso. Score alto costuma indicar caso acionável. A faixa intermediária pede revisão humana. Score baixo funciona como ruído. A documentação reúne as métricas e traz exemplos comentados.
No fim, o Radar transforma a experiência de quem sofre ódio nas redes em informação organizada para a ação coletiva e política.
Por que criamos essa Inteligência Artificial
Tudo partiu da nossa Base de Dados de Ódio anti-LGBTQIA+, o primeiro conjunto de dados aberto em português sobre o tema. São 12.102 registros, 1.891 deles classificados à mão. A base foi montada para embasar o relatório sobre a onda de ataques contra o podcast Entre Amigues, que hoje também integra a nossa Ação Civil Pública contra as Big Techs.
A ideia é oferecer instrumentos de resistência digital e de justiça algorítmica. Ferramentas que permitam às comunidades entender, auditar e mudar as infraestruturas que decidem o que circula no debate público e, no limite, moldam a vida das pessoas.
Entre os usos possíveis estão o monitoramento de redes, a produção de alertas e relatórios, o apoio à formação de provas e cadeia de custódia quando há captura com metadados, e a pesquisa acadêmica. A integração é feita via transformers, pela API do Hugging Face. Também publicamos orientações para quem quer implantar a ferramenta, inclusive em fluxos que juntam triagem automática e checagem humana.
O projeto faz parte de uma aposta maior da Código Não Binário: desenvolver tecnologia LGBTQIA+ aberta e cooperativa, que reúna ciência de dados, comunicação e litígio estratégico. Tecnologia a serviço da vida, não da violência.
O ecossistema TybyrIA
A TybyrIA não se resume ao modelo de IA. É um conjunto de ferramentas abertas, transfeministas e decoloniais voltadas ao enfrentamento coletivo do ódio anti-LGBTQIA+. Do lançamento até a atualização de março de 2026, o projeto registrou 514 downloads da base de dados, 297 da versão mais recente do modelo e mais de 1.200 acessos às aplicações web.
Fazem parte desse conjunto o Radar Social LGBTQIA+, o Radar Legislativo LGBTQIA+ e a Base de Dados de Ódio LGBTQIA+ no Hugging Face. A eles se somam dois documentos que explicam a base teórica e o método do projeto.
Nota Conceitual
A Nota Conceitual do TybyrIA reúne a fundamentação teórica e metodológica do projeto. Ela articula epistemologias feministas decoloniais latino-americanas, com autoras como Lugones, Curiel e Espinosa-Miñoso, e estudos queer sobre o poder do discurso, de Foucault a Butler e Preciado. O argumento central é que a colonialidade de gênero organiza tanto as plataformas digitais quanto os repertórios de violência. Como resposta, o texto propõe o que chama de tecnologia trans: ferramentas feitas por e para pessoas dissidentes, pensadas para o cuidado e para o enfrentamento de sistemas opressivos.
A nota também detalha os objetivos técnicos, epistemológicos e comunitários do projeto. Entre eles, a ampliação da base com anotação feita pela comunidade, a criação de um guia de anotação de base feminista decolonial e o desenvolvimento de novos produtos digitais a partir dessa participação.
Paper Acadêmico
O paper “Radar Social LGBTQIA+: Cooperative AI Against Platform-Mediated Hate” conta a trajetória do projeto. Vai da reação humana à onda de ódio contra o Entre Amigues até a construção de um sistema de IA capaz de ampliar a detecção e a análise comunitária do discurso de ódio em português brasileiro.
O artigo mostra como uma experiência concreta deu forma a um modelo de IA guiado por critérios éticos e ligado à comunidade. A partir daí, propõe um modelo de infraestrutura de IA cooperativa, que recuse a lógica extrativa das plataformas e devolva algum controle tecnológico a grupos marginalizados. O texto situa o Radar Social entre o mapeamento feito por pessoas e a detecção automática. Também descreve como o projeto saiu de um protótipo de escuta das redes para a TybyrIA, treinada com dados anotados por pessoas LGBTQIA+.
Uso responsável
O sistema classifica os conteúdos de forma automática, mas a decisão final depende de revisão humana. É isso que garante precisão e sustentação política ao resultado. As ferramentas não substituem o trabalho de acompanhamento que já existe. A proposta é reforçá-lo, transformando grandes volumes de dados em informação que dá para ler, questionar e usar.
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Veja mais sobre esse assunto
- Ação Civil Pública contra Big Tech. Ação judicial que usa a TybyrIA como prova na defesa de direitos.
- Relatório “Anatomia de uma Onda de Ódio”. Sobre os ataques que sofremos no Podcast Entre Amigues, dentro do fenômeno nacional dos Boycetas.
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